- Zé! - Pião. Qual foi? - Eu fiz. - Fez? Não fez. - Finalmente, Zé! Eles nem notaram. - Nem, mentira. Quanto você pegou? - Quanto? - Foi dinheiro, né? - Não, não. Mas vou vendê, né. - Vender o quê? O que cê pegou? - Eu olhei antes e o preço... - Fala, pô. O que tu levou? - Dois, Zé, enormes baldes de tinta. - Puta que te pariu. Qual é a porra do teu problema? - Inveja! Fiquei rico, tá. Já viu o preço dessas coisa? - Zé, onde que tu pegou isso? - Na loja de tinta, ué. Onde mais, jumento? - Sei lá, pô. Você é doido. Tava falando em invadir casa, bater em idoso... - Sim, não, não precisou. - Pião, Zé! - Prego, pergunta pro Pião o que esse bunda mole fez. - Ei, ei! Não conta pra ele, né, jumento. - Ah, não. Ele roubou a casa de repouso da outra cidade, né? - Inda não. - Cala a boca aí, pô! Prego, vou descolar uma grana boa. Eu... - É tinta! Esse imbecil roubou dois latões de tinta! - Qual foi a última vez que um dos dois comprou tinta, hein? Nem sabe a grana boa que eu vou fazer. - Pião, pode até valer uma grana. Mas pra quem você vai vender isso, hein? - Eu juro, Pião, se tu voltar na loja de tinta pra tentar vender essas coisas... - Não, não. Eu vendo em outro lugar. - É o único lugar de toda a São Belomato que vende dessa tinta, cara. - Eu vendo por fora! Pô, vocês num tão ajudando. - Tu roubou tinta! Maluco, Tu roubou tinta! - Calma aí, Zé. Vamos pensar aqui. - Ha. Já sei. - Nem ouvi mas num confio nas ideia do Zé. - Disse o ladrão mais burro do estado! - Calma, Zé! - Mais burro que a prima do Juliano que saiu com uns vinte esmaltes enfiados na... - Fala aí, então! O que eu faço com a tinta, hein? - Prego, você ainda tem aquele teu rolo, né? - Vish, você vai botar o Pião pra pintar? - Ei, ei, sei não hein. Mal to aguentando meu trabalho no posto. O cansaço e a idade, sacumé. - Quando tu roubou essa tinta, hein? - Na terça. - No meio do seu trabalho? - Si- Não. Foi no domingo. - A gente tava com você no domingo, jegue. - No outro domingo. - Vagabundo! - Pião, tenta vender a tinta na cidade do lado. Se não der, faz uns bicos de pintor mesmo, igual o Zé falou. - Pô. Imagina andar até as loja carregando dois balde. Sol quente, né. - Eu levava tu, mas o carro quebrou. Meu avô curtia tanto o possante... - Eu falo de você pra minha família, então. Beleza? Eles tão precisando de dar uma retocada numas paredes, - Num creio. Eu roubei pra trabalhá, é? - Tu quer fazer dinheiro, né? A gente só tá dando a dica. - Não é tão pesado assim, cara. E você pode fazer uma grana boa. Mais do que a tinta vale, até! - Nunca mais roubo nada, belê? Não dá mais pra ser ladrão hoje em dia. Você rouba e ganha mais trabalho? Onde já se viu, hein... - Mereceu. Mas aliás, como foi que tu conseguiu roubar essas tinta, hein? - Foi fácil! Mestre da sabedoria aqui. Pedi pro vendedor ir procurar umas coisas lá nos fundo da loja. Ele foi e eu peguei as tinta e saí correndo. - Sortudo. E tô vendo seu corpo de idoso aí, folgado. - Chato! - Pião, só pra saber: qual a cor dessas tintas, hein? - Putz. - Pião? - Olha: são um rosa choque lindo! Sua tia vai amar. Certeza!